Carta XVI – BEJA - A Estação Onde o Comboio Nunca Chega
Minha querida Mariana,
Hoje escrevo-te com o som do vento nas planícies e o silêncio de uma estação vazia. Há silêncios que dizem mais do que gritos — e o de Beja, à espera de um comboio que nunca chega, é um desses.
Voltou a falar-se da Linha Casa Branca–Beja, essa promessa cansada que os governos sucessivos acenam ao Baixo Alentejo como quem mostra uma miragem a quem atravessa o deserto. Vem sempre aí, vem sempre “quase”, vem sempre “na próxima fase”. Mas na verdade, querida Mariana, o que não vem é o comboio.
A Infraestruturas de Portugal alertou que a CCDR Alentejo resolveu cortar a dotação financeira para o projeto — de 80 milhões para uns envergonhados 20. E com isso, alterou-se o fôlego, o fuso e o futuro de uma obra que dizem ser estratégica. Estratégica para quem? Para nós, certamente não tem sido.
E lá veio a inquietação dos municípios, as declarações preocupadas, os pedidos de esclarecimento. Fala-se agora em 2032. Oito anos. Oito anos de incertezas, de mapas, de promessas, de reuniões que já vamos ouvindo desde que éramos rapazes. O concurso só em 2026. A ligação ao aeroporto, “praticamente no ponto zero”. Que novidade, Mariana.
O Baixo Alentejo — este mesmo onde escrevo — continua a contar pouco para quem tem a responsabilidade de nos governar. Muito pouco. Tão pouco que já nem fingem corar.
E como se não bastasse, ainda assistimos a este triste bailado burocrático: uns atiram culpas ao Governo, outros à CCDR, outros à CIMBAL, outros ao vento. Mas o resultado é sempre o mesmo: nós ficamos à espera na estação.
As planícies merecem mais do que discursos elegantes. Merecem obra. Merecem respeito. Merecem ligação ao país onde, às vezes, nos fazem crer que já não pertencemos.
Eu lembro-me sempre daquela frase, Mariana:
“Um comboio que não chega não é atraso — é ausência.”
E Beja vive nesta ausência há décadas.
Talvez um dia, quando as linhas deixarem de ser traços em PowerPoints e voltarem a ser caminhos, ouçamos finalmente o apito ao longe.
Até lá, continuarei aqui, na gare vazia, a enviar-te estas cartas enquanto espero, com o casaco apertado e a paciência de quem sabe que o futuro tarda porque o deixam tardar.
Com a lucidez amarga de quem ama esta terra,
O Cavaleiro das Planícies
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Desafio-te a começar assim:
“Minha querida Mariana…”