Carta XV – Quando o silêncio pesa mais do que a ausência dos jornais



Minha querida Mariana,

Hoje escrevo-te com um aperto diferente, talvez por saber que uma notícia, quando deixa de chegar, é mais do que papel que falta — é um pedaço do país que se apaga.

Soube-se que a Vasp, única distribuidora nacional de imprensa, atravessa uma tormenta financeira daquelas que não se disfarçam.
Dizem que as vendas caíram, que os custos subiram, que o interior é dispendioso, que manter rotas já não compensa.
E entre os oito distritos que podem perder a distribuição diária de jornais… lá está Beja, tão esquecida como sempre.

Mariana, imagina as nossas manhãs sem o ritual humilde do papel dobrado, sem a banca que abre cedo, sem o gesto simples de escolher um jornal como quem escolhe companhia.
Nos territórios onde já faltam médicos, transportes, investimento e serviços, faltar informação seria mais uma forma de apagar o que resta de cidadania.

A própria Associação Portuguesa de Imprensa alertou para a gravidade desta ameaça:
“limitar o acesso à informação é ferir o direito constitucional dos cidadãos”.
E o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, admitiu a urgência de encontrar soluções antes que seja tarde.

Mas sabes o que me custa mais, Mariana?
O silêncio.
O silêncio das vozes de Beja, que desta vez não disseram uma única palavra.
Como se perder jornais fosse um detalhe menor.
Como se a interioridade já estivesse tão resignada ao abandono que nem a ausência da imprensa levantasse inquietação.

E, no entanto, este é um assunto que deveria unir todos — autarcas, deputados, associações culturais, escolas, cidadãos.
Porque uma terra sem jornais é uma terra sem memória, sem escrutínio, sem opinião, sem futuro.

É triste ver que, sempre que o país hesita, o interior é o primeiro a cair e o último a ser defendido.
Mas enquanto houver quem escreva, quem leia e quem não aceite este destino mudo, ainda não nos tiraram tudo.

Das planícies escrevo, inquieto,
O Cavaleiro das Planícies

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